quarta-feira, 24 de novembro de 2010

De estética modernista

Essa estória tem início em uma praça vazia exceto por algumas árvores, mas estas só se moviam por causa do vento que, no momento, não existia.
Talvez fosse um feriado, uma cidade fantasma, um local de contaminação nuclear. O fato é que não havia mais ninguém.
Exceto, é claro, o jovem casal que acabara de chegar. Entraram de mãos dadas, os passos lentos de quem quer que o relógio pare.
Sentaram em um dos bancos feitos de flores, folhas e galhos. Por alguns instantes encaravam o chão, o medo de que o excesso de amor transbordasse pelos olhos ou, pior!, pela boca.
Ah, como é lindo o medo dos amantes. Vivem de receios e, no entanto, felizes. A timidez reinava, purificando aquele mútuo sentimento.
Finalmente olharam-se. Não importavam a boca, o nariz, sobrancelhas ou cabelos. Só viam os olhos um do outro e, dessa forma, pensavam ver a alma.
Ele criava coragem para dizer algo tinha medo de destruir o que estava vivendo mas ainda assim precisava falar:
- Anjo, precisamos conversar.
E foi esse o fim; fim da serenidade. Finalmente sentiram a brisa leve que agitava os cabelos dela e as folhas das árvores. Viram e ouviram as pessoas que estavam na praça também. O banco tornou-se frio, duro e cinzento.
Acabara a utopia, era hora de amadurecer. Aprender a construir e manter um amor.


Mariana T. Spezani
24/11/10

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

As duas faces do homicídio

Pâmela passara a tarde inteira escolhendo o que usaria na festa desta noite. Queria algo que fosse feminino, sem ser inocente. Sexy, sem ser vulgar. Queria classe, beleza, sensualidade. Finalmente, escondido em seu armário, o vestido ideal. Realçaria perfeitamente as curvas de seu corpo, seria impossível não notá-la. A dama inesquecível da noite.
A cor do vestido por si só fazia com que seus cabelos ruivos parecessem ardentes sobre a pálida pele dos ombros Cuidadosamente a maquiagem também foi escolhida, os olhos azuis com um destaque especial.
Estava estonteante. Linda. Não. Era linda, sempre fora e sabia disso! Ela só precisava fazer com que Arthur se lembrasse disso e então ele seria dela mais uma vez.
Pamela e Arthur foram namorados. Ela tinha 14 anos e ele, 15. Ela sempre muito apaixonada. Ele apaixonava todas. Cinco meses após o início do namoro, ele mudou para o Canadá com seu pai, nunca mais se viram.
Eis que a tecnologia, muitas vezes a vilã, merece ser exaltada nessa história. Reencontraram-se em um site de relacionamentos dois dias atrás. Ele, de certo para matar a saudade, convidou-a para sua festa de aniversário. Hoje.
Pâmela tinha absoluta certeza que, após vê-la, os sentimentos que Arthur nutrira por ela na adolescência voltariam à tona. Tudo o que ela sempre quis! O homem de seus sonhos...
Chegou à festa com um leve sorriso estampado nos lábios. Não conhecia nenhum dos convidados e, mesmo que conhecesse, eles eram segundo plano em sua procura pelo amor.
Finalmente encontrou-o, no bar, pegando uma taça de vinho. Eles se abraçaram, ele parecia feliz e surpreso em vê-la daquele jeito. Talvez não imaginara o quanto ela ainda estaria perfeita.
- Pamela! Nossa, quanto tempo, não? Você está absurdamente deslumbrante!
- Obrigada. Você também está maravilhoso! Com toda certeza tem malhado, né? Há dez anos você não tinha todos esses músculos não.
Ele riu, corou um pouco e respondeu:
- Sim, sim. Você fica muito sedentário quando passa o dia todo sentado tentando administrar uma empresa. Mas o que você tem feito? Fez faculdade? Se formou?
- Ora, você tem a honra de estar conversando com a doutora Pâmela, psicóloga. Estou fazendo mestrado agora, minha tese tem relação com o comportamento dos homicidas.
- Uau, que impressionante!
Pâmela sorriu. Uma mulher linda, de cabelos e olhos negros, pele branca, corpo tão perfeito quanto o de Pamela parou do lado de Arthur. Ele estendeu-lhe a taça de vinho que segurava e fez as apresentações:
-  Cecília! Deixa eu te apresentar. Essa é a Pâmela.
Cecília sorriu para Pâmela. Arthur abraçou-a e continuou:
- Pam, essa é a minha esposa, Cecília.
Pâmela sorriu e pediu licença, disse que precisava ir ao banheiro. Estava atônita, chocada, impressionada, bestificada, acabada. Ele era casado? Por vinte minutos permaneceu estática: mãos apoiadas na pia, fitando seu reflexo no espelho. Resolveu que iria voltar para a festa, encarar os fatos, lutar pelo seu homem.
Abriu sua bolsa para retocar o batom. A porta do banheiro abriu e fechou. Havia uma faca na sua bolsa? O que ela fazia lá? Alguém disse "Ei! Olá!".
Pâmela olhou para o lado, Cecília acabara de entrar no banheiro. Estavam sozinhas, ninguém lá fora ouviria nada, a música estava alta.
Ela iria lutar com unhas e dentes. Pâmela olhou para Cecília, sorriu e tomou sua decisão.
O final, caro leitor? Permita que sua imaginação desenhe.

Mariana T. Spezani


Baseado na música Ironic - Alanis Morissette
"It's meeting the man of my dreams
And then meeting his beautiful wife
And isn't it ironic... don't you think?
A little too ironic.. and yeah I really do think..."