terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Um sonho de Natal

- Mamãe! Eu quero usar aquele vestido de princesa que usei no meu aniversário!
Fernanda pulava na cama, enrolada na toalha, apontando pro armário. No alto de seus quatro anos de idade, aquele vestido amarelinho e rodado dava a ela o poder de ser a Bela, da Bela e a Fera.
- Ah, não, Fê - disse sua mãe, entrando no quarto com uma sacola - É Natal, é dia de usar roupa nova! Olha que lindinho esse vestido!
O vestido era novo pra elas, de toda forma. Lívia, mãe de Fernanda, ganhara-o da vizinha de sua patroa, não servia mais na filha dela e, de toda forma, até a mais mesquinha das pessoas sente-se caridosa no Natal.
- Mamãe, esse seu vestido é novo? É muuuito bonito!
Lívia puxou a bainha de seu vestido, na metade da coxa, um pouco pra baixo. Também era novo, pra ela. A filha de sua patroa, de 15 anos fora a antiga dona. Lívia era tão magra que o vestido ficava perfeito nela.
Terminou de vestir sua filha com todo o carinho, era seu mundo, seu maior prazer.
Arrumadas o melhor que podiam, saíram de casa e foram à igreja mais próxima, desde que Paulo se fora, não perdiam uma única Missa. Ele sempre fizera tanta questão... E, desde que se fora, Lívia virara uma Católica fervorosa. Na hora da comunhão, pedia a Deus pela alma de seu marido e pela felicidade de sua filha. Agradecia por sua vida, seu trabalho. Sempre chorava.
Fernanda, olhava a mãe, ajoelhada a seu lado. Esperou ela se levantar, limpou suas lágrimas e disse:
- Mamãe, o biscoito é ruim? Você sempre chora quando o Padre te dá ele.
Lívia sorriu, e respondeu:
- Não, minha filha. É a melhor coisa do mundo! Quando você for maiorzinha vai entender como Deus é bom conosco. Eu te amo, seu pai também te ama demais, ele sempre olha pra você. Feliz Natal, meu anjinho!
Abraçou Fernanda e, em silêncio, as duas choravam. Fernanda chorava pela lembrança de seu pai, fora embora há 6 meses, e ela nunca mais o vira.
Lívia chorava em agradecimento pelos sonhos realizados e por aqueles que ainda viriam a se tornar reais.


Mariana T. Spezani
21/12/2010

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

De estética modernista

Essa estória tem início em uma praça vazia exceto por algumas árvores, mas estas só se moviam por causa do vento que, no momento, não existia.
Talvez fosse um feriado, uma cidade fantasma, um local de contaminação nuclear. O fato é que não havia mais ninguém.
Exceto, é claro, o jovem casal que acabara de chegar. Entraram de mãos dadas, os passos lentos de quem quer que o relógio pare.
Sentaram em um dos bancos feitos de flores, folhas e galhos. Por alguns instantes encaravam o chão, o medo de que o excesso de amor transbordasse pelos olhos ou, pior!, pela boca.
Ah, como é lindo o medo dos amantes. Vivem de receios e, no entanto, felizes. A timidez reinava, purificando aquele mútuo sentimento.
Finalmente olharam-se. Não importavam a boca, o nariz, sobrancelhas ou cabelos. Só viam os olhos um do outro e, dessa forma, pensavam ver a alma.
Ele criava coragem para dizer algo tinha medo de destruir o que estava vivendo mas ainda assim precisava falar:
- Anjo, precisamos conversar.
E foi esse o fim; fim da serenidade. Finalmente sentiram a brisa leve que agitava os cabelos dela e as folhas das árvores. Viram e ouviram as pessoas que estavam na praça também. O banco tornou-se frio, duro e cinzento.
Acabara a utopia, era hora de amadurecer. Aprender a construir e manter um amor.


Mariana T. Spezani
24/11/10

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

As duas faces do homicídio

Pâmela passara a tarde inteira escolhendo o que usaria na festa desta noite. Queria algo que fosse feminino, sem ser inocente. Sexy, sem ser vulgar. Queria classe, beleza, sensualidade. Finalmente, escondido em seu armário, o vestido ideal. Realçaria perfeitamente as curvas de seu corpo, seria impossível não notá-la. A dama inesquecível da noite.
A cor do vestido por si só fazia com que seus cabelos ruivos parecessem ardentes sobre a pálida pele dos ombros Cuidadosamente a maquiagem também foi escolhida, os olhos azuis com um destaque especial.
Estava estonteante. Linda. Não. Era linda, sempre fora e sabia disso! Ela só precisava fazer com que Arthur se lembrasse disso e então ele seria dela mais uma vez.
Pamela e Arthur foram namorados. Ela tinha 14 anos e ele, 15. Ela sempre muito apaixonada. Ele apaixonava todas. Cinco meses após o início do namoro, ele mudou para o Canadá com seu pai, nunca mais se viram.
Eis que a tecnologia, muitas vezes a vilã, merece ser exaltada nessa história. Reencontraram-se em um site de relacionamentos dois dias atrás. Ele, de certo para matar a saudade, convidou-a para sua festa de aniversário. Hoje.
Pâmela tinha absoluta certeza que, após vê-la, os sentimentos que Arthur nutrira por ela na adolescência voltariam à tona. Tudo o que ela sempre quis! O homem de seus sonhos...
Chegou à festa com um leve sorriso estampado nos lábios. Não conhecia nenhum dos convidados e, mesmo que conhecesse, eles eram segundo plano em sua procura pelo amor.
Finalmente encontrou-o, no bar, pegando uma taça de vinho. Eles se abraçaram, ele parecia feliz e surpreso em vê-la daquele jeito. Talvez não imaginara o quanto ela ainda estaria perfeita.
- Pamela! Nossa, quanto tempo, não? Você está absurdamente deslumbrante!
- Obrigada. Você também está maravilhoso! Com toda certeza tem malhado, né? Há dez anos você não tinha todos esses músculos não.
Ele riu, corou um pouco e respondeu:
- Sim, sim. Você fica muito sedentário quando passa o dia todo sentado tentando administrar uma empresa. Mas o que você tem feito? Fez faculdade? Se formou?
- Ora, você tem a honra de estar conversando com a doutora Pâmela, psicóloga. Estou fazendo mestrado agora, minha tese tem relação com o comportamento dos homicidas.
- Uau, que impressionante!
Pâmela sorriu. Uma mulher linda, de cabelos e olhos negros, pele branca, corpo tão perfeito quanto o de Pamela parou do lado de Arthur. Ele estendeu-lhe a taça de vinho que segurava e fez as apresentações:
-  Cecília! Deixa eu te apresentar. Essa é a Pâmela.
Cecília sorriu para Pâmela. Arthur abraçou-a e continuou:
- Pam, essa é a minha esposa, Cecília.
Pâmela sorriu e pediu licença, disse que precisava ir ao banheiro. Estava atônita, chocada, impressionada, bestificada, acabada. Ele era casado? Por vinte minutos permaneceu estática: mãos apoiadas na pia, fitando seu reflexo no espelho. Resolveu que iria voltar para a festa, encarar os fatos, lutar pelo seu homem.
Abriu sua bolsa para retocar o batom. A porta do banheiro abriu e fechou. Havia uma faca na sua bolsa? O que ela fazia lá? Alguém disse "Ei! Olá!".
Pâmela olhou para o lado, Cecília acabara de entrar no banheiro. Estavam sozinhas, ninguém lá fora ouviria nada, a música estava alta.
Ela iria lutar com unhas e dentes. Pâmela olhou para Cecília, sorriu e tomou sua decisão.
O final, caro leitor? Permita que sua imaginação desenhe.

Mariana T. Spezani


Baseado na música Ironic - Alanis Morissette
"It's meeting the man of my dreams
And then meeting his beautiful wife
And isn't it ironic... don't you think?
A little too ironic.. and yeah I really do think..."

domingo, 31 de outubro de 2010

Apenas um poema

Densa escuridão opressora,
em meio a ela existe algo:
Fragrância estranhamente sedutora...
Quando enfim vejo, me calo

Uma pessoa, talvez um animal
de certo está em movimento,
arrasta-se, rasteja em seu insano carnaval
de luzes perdidas, vãos sentimentos.

Simbolismo? Se acaso essa visão 
feita de metáforas
desfaz toda essa confusão oprimida?
Só veja o que a imaginação pintou:

Se o quarto é a alma, escura como a morte
o ser, o que teria sido,
não fosse seu medo de arriscar.
Olhe, adormecido, entorpecido:

O poeta oprimido.

Mariana T. Spezani

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Mártir

Acabara de sair do tribunal, mais uma causa ganha. Mas Letícia não estava feliz. Tentava manter a postura, a face séria e confiante que aprendera a usar, mas na verdade... Aquela dor dilacerava-a. Como poderia doer tanto assim? Era tão recente e, no entanto, a dor era tão profunda!
Logo hoje que fora trabalhar sem carro... Era mais torturante ainda ir andando pra casa, tentando não chorar ou fazer cara feia. Era uma cidade não muito grande, todos se conheciam, ela precisava manter a compostura! Mesmo que cada segundo a torturasse, heroicamente caminhava até sua casa, não muito longe, mas - ah! - como a dor era profunda!
E como era difícil manter a expressão séria quando tudo que queria era enroscar-se em um canto e morrer... Era desumano sentir tamanha dor!
Faltavam 3 quadras.
Encontrou com uma velha colega de classe, da turma de direito. Tagarela, eternamente feliz. A pessoa errada para se encontrar em um momento como aquele. Deu uma desculpa qualquer e continuou seu caminho. A dor tendia a piorar, dava vontade de chorar.
Duas quadras apenas.
Por mais que fizesse força, não conseguiu. A essa altura, as sobrancelhas franziram e a expressão de intensa agonia tomou conta de seu rosto. Mas como era forte aquela Letícia! Conseguiu recompor-se apenas dois passos após. Tinha de ser policiar, ser disciplinada.
Mais uma quadra e estaria em casa!
Estava dividida entre o instinto de correr e a necessidade racional de manter o ritmo da caminhada. Faltava tão pouco... E doia tanto! Espetadas de agulhas pontiagudas... Facas rasgando-a....
Sim! Chegou, finalmente! Deu um "boa tarde" entredentes para o porteiro, nem mesmo viu se havia recebido cartas. Seu foco era penas o elevador.
Graças a Deus, estava subindo a caminho do 10º andar, seu apartamento! Sonhava com um banho, um descanço no sofá.
Mas ainda não poderia perder a pose, e se encontrasse algum vizinho na saída? Eram tão fofoqueiros e invejosos....
8º... 9º andar... Parecia uma eternidade. Aquele elevador sempre fora tão lerdo assim? Quando finalmente entrou em casa, a irritação por aquela tortura ridícula superava toda a dor.
Trancou a porta, tirou os sapatos e jogou-os no lixo.
Finalmente, livre do tormento!

Mariana T. Spezani

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

3:30h

no meio da madrugada desperta
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
um barulho a acorda
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
o pensamento sonolento confunde
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
anda pela casa busca a origem
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
de tão irritante atormentação
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
gotas ritmadas a cair
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
o som segue-a por toda a
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
vazia e escura casa
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
a irritação só aumenta
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
de cômodo em cômodo vagueia
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
nada quebrado ou fora do lugar
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
enlouquecendo com tamanha tortura
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
sai de casa e entra no carro
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
dirige pelas ruas o som permanece
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
liga o rádio alto está enlouquecida
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
ainda ouve fica fora de si
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
não aguenta mais a situação
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
tampa os ouvidos fecha os olhos
- PLIC PLIC PLIC PLIC -
o carro bate em um poste
- PLIC PLIC PLIC -
a cabeça choca-se contra o volante
- PLIC PLIC -
desmaia e perde muito sangue
- PLIC -
morre sem saber que o amor pingava
e de seu coração gotejava.

Mariana T. Spezani



Ausência de pontuação e uso inadequado de letras maiúsculas e minúsculas foram PROPOSITAIS.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O jantar

Plínio: jovem, bonito, alegre, talentoso, frustrado. Não profissionalmente, longe disso. Plínio sempre fora aluno destaque e, aos vinte e dois anos, lançou seu primeiro livro. Um suspense emocionante, de acordo com as críticas. Campeão de vendas.
No amor então... Plínio não poderia ser mais feliz. Ele tinha Beatriz. Casara-se com o amor da sua vida, namoravam desde os 17 anos. Sempre foram o tipo de casal que combinava perfeitamente, alguns rompantes isolados, é verdade, mas... Eram amigos, namorados, casados, apaixonados.
O problema de Plínio era o rancor. Sua família... Bom, nunca havia sido exatamente o ideal da família. Pouco companheirismo, muitas cobranças. Nunca acreditaram nele. Juravam que ele seria destinado a uma vida medíocre, solitário. Faziam apostas de que Beatriz o trocaria por alguém mais rico.
Tudo errado. A cada cena, a cada desentendimento desse tipo, Beatriz sentia mais admiração e amor por Plínio. E, movido por esse sentimento, Plínio tinha forças para buscar crescer sempre mais, buscar o seu melhor para sua futura esposa. Lançou o livro, juntou dinheiro, noivou e casou.
Mas o rancor... Ah, esse sentimento que se enraiza profundamente na alma não causa dor alguma. Mas quando seus frutos brotam, como arde! Raiva, frustração, ódio, infelicidade. Plínio conhecia bem essa miscelânea de sentimentos. Tinha que esforçar-se ao máximo para não expulsar seus pais de casa quando, num jantar de Natal ou de aniversário, depois de beber, seu pai falava:
- Olhem aí! Hoje... Meu filho, bem de vida! É assim que se educa! Tudo que ele aí, ali óh, tudo graças a mim! esse moleque não seria nada sem meu apoio...
E a cena parecia até algum ato de teatro, era bem coreografada. Abrem-se as cortinas, toca a música melancólica. Plínio olhava para o pai com um olhar de magoada raiva, o pescoço começava a avermelhar e ele ia para seu quarto.
Beatriz então ficava sem jeito, inventava uma desculpa qualquer e ia atrás de seu marido. Encontrava-o sentado na cama, cotovelos apoiados nas pernas, o rosto enterrado nas mãos. Chorando. Abraçava-o e choravam juntos a dor. Sim, Beatriz também sentia dor. Seu marido sofria então ela sofreria também. Ela o conhecia bem e sabia que ele não merecia ser tratado daquele jeito.
Ao fim de algum tempo, Beatriz olhava-o no fundo dos olhos, chegava até sua alma. Enxugava as lágrimas que riscavam-lhe a face. Um beijo, uma frase:
- Tem gente que não sabe lidar com a responsabilidade de ter filhos, mas todos amam.
Outro beijo, mais terno, e a sentença que reaquecia o coração de Plínio:
- E, principalmente, eu te amo. Para sempre.
Fecham-se as cortinas.

Mariana T. Spezani

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ler e gostar de aprender

Antes de mais nada, um aviso: Meus textos são de inspiração Machadiana e Clariciana. Esse, nem de longe faz meu estilo de texto, mas creio que uma metalinguagem, de vez em quando faz bem, pois é absurda e incrivelmente grande o número de pessoas que não sabe escrever direito. Espero que as figuras de linguagem possam ajudar :)

A senhora Fátima, sempre muito fática, foi a encarregada de ligar para fazer as reservas. A Metáfora já havia dito-lhe que, para seu jantar de aniversário, precisaria de quilômetros de mesas, não queria que nenhum amigo ficasse de fora.
Sua irmã, a Comparação (que, diga-se de passagem, nunca iria conseguir ter o mesmo estilo da metáfora) sugeriu que mesas de madeira preta como óleo ficariam mais elegantes. Pleonasmo, seu pai, riu e disse:
- Você deveria parar de falar calando a boca, menina! O aniversário é da minha filha, sua irmã. Ela que decide.
Metáfora riu e foi ao shopping comprar alguns substantivos abstratos para compor seu estilo, sempre muito elogiado, para seu jantar do dia seguinte.
E então, eis o grande dia! Sinestesia, a primeira a chegar, já foi dizendo que podia ver o saboroso cheiro da comida. Sempre gulosa! O Assíndeto, preencheu seus espaços vazios com elogios seguidos, parecia deslumbrado:
- Mas esse salão é lindo, aconchegante, chique, refinado, de muito bom gosto! Meus parabéns, querida metáfora! Muitos anos de vida, felicidades, bênçãos, saúde, amigos, sucesso, dinheiro, amor....
Paradoxo que, àquela manhã, havia adiantado seu relógio para chegar na hora certa, foi o último a chegar. Metonímia, já sentada à mesa, nuca perdia uma piada e já foi logo gozando da roupa do coitado:
- Lá vem a cartola pomposa!
Paradoxo logo ficou envergonhado, tirou e guardou a cartola que usava. Também tentou deixar seu smoking um pouco menos formal, sem muito sucesso. Antítese quis defender o irmão mas, sempre muito intelectual e discreta, o fez sem expressar sons ou gestos.
Servido o jantar foi primeiro para a já idosa Anástrofe, sempre em seu estilo clássico e confuso, sentada à ponta da mesa. Tia Hipérbole, sempre muito escandalosa e querendo ser notada, quis fazer graça:
- Fiquei a semana toda sem comer por causa desse jantar. Hoje só paro de comer quando explodir!
Onomatopéia, por outro lado, mal falava, apenas expressava sua apreciação pela comida com alguns "Huuuum" intercalados com as garfadas.
Prosopopéia - personificação, para os íntimos - sempre muito enjoada para comer, brincava com a comida, formava rostos humanos em seu prato.
Assíndeto, em sua nova dieta, apenas podia dar-se ao luxo de comer conectivos. Já o Polissíndeto dizia que conectivos lhe causavam enjoo, vomitava todos eles, sempre. Anáfora comia peixe, presunto, palmito, paio, pimenta e panqueca com um vinho do porto para acompanhar. De sobremesa, atacou o pudim.
Findo o jantar, Metáfora, como boa anfitriã, quis dizer algumas poucas palavras:
- Meus queridos amigos, tê-los aqui fez de minha noite uma ensolarada alegria!
Bateram palmas e despediram-se. Uns pegaram carona nas mentes de jovens escritores. Outros, cansados, prefiriram descansar em um bom livro.

Mariana T. Spezani

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Memórias de um futuro

Júlia corria pelo play do prédio, brincando. Corria, gritava, pulava, ria.
- Jú, meu anjo, vem aqui!
Ela gargalhava mais ainda enquanto corria ao encontro de seu pai. Seu riso era de um som maravilhoso, angelical, contagiante. Agarrou-se às pernas do pai, ainda rindo. Como seria maravilhoso se, mesmo depois de adulta, de todo o peso das responsabilidades, ela conservasse viva essa alegria!
César pegou-a no colo, rindo também, e deu-lhe um beijo estalado na bochecha. Levou-a até um outro homem, mais alto, que carregava uma menina mais ou menos do mesmo tamanho de Júlia.
-Anjinho, esse é o tio Rogério e a filha dele, Sofia.
Sofia e Júlia se entreolhavam um pouco tímidas. César e Rogério esperavam apreensivos. Sofia deu um sorriso. Júlia retribuiu. Os pais colocaram-nas no chão e, como velhas conhecidas, foram sentar no banco mais próximo, conversando sobre magia, bolas de sabão, sereias e contos de fadas.
Como tudo é perfeita e maravilhosamente simples no mundo infantil!
Não sabiam o que passariam juntas. Não imaginavam que dividiriam as dúvidas de carreiras no vestibular, que estudariam, por um tempo, na mesma escola, que as pessoas pensariam que eram irmãs. Também não faziam ideia de que começariam a namorar quase que ao mesmo tempo. Nem podiam imaginar quantas crises de riso ainda estariam por vir, quantos olhares significativos. Trocariam livros, palavras, roupas, sapatos e confissões. Não importava agora, o futuro era nada.
Tudo o que aquelas meninas, inconscientemente, sabiam era que ali estava nascendo uma amizade e um companheirismo. Ambos muito fortes, uma conexão inexplicável que duraria por toda a vida.
Afinal, a melhor sinestesia é ouvir o toque do doce aroma cor de laranja da amizade.


Mariana T. Spezani

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Poema de te querer.

Tal qual anjos harpas tocando
Seu beijo musicou minha mente.
Basta que você esteja olhando,
coração pulsa mais ternamente.

Voz que remete às intrincadas,
belas, complicadas sinfonias
e em meus ouvidos está já marcada,
motivo principal de minha alegria.

Veludo nobre algum merecia
ao seu toque comparado ser.
Minha vida, então, é intensa agonia
Acaso passe um dia sem você.

Como - sim - Ah, como eu gostaria
de nadar nunca mais saber!
Pra sempre, perdida, afundaria.
Em seus olhos, verdes lagos, me perder.

E se teu perfume meu olfato invade
a dança de sensações é indescritível.
Palavra alguma para descrever cabe,
amar tanto deve ser impossível!

Mariana T. Spezani



Um adendo: Peço desculpas pela métrica nem tão perfeita. Tento ser o mais parnasiana possível com isso mas, nesse caso, teria que sacrificar o conteúdo.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Borboletas...

Preta e azul. Eram essas as cores da borboleta que pousou na janela da sala de aula do Professor Cláudio naquela manhã. Ele olhou-a rapidamente, sem muito interesse. Quase nada deixava-o interessado ultimamente.
Falava a seus alunos sobre o Romantismo. Não, essa não é uma boa definição. Ele debochava do Romantismo. Não acreditava em amor, não mais. Clarissa se fora. Quatro longos, solitários e amargurados anos.
- Óh virgem inalcançável, como te amo sem nunca te conhecer! Olhe para este pobre coitado, desesperado. Passo fome para dar-te um buquê de rosas. Porquê minha vida se resume a você!
Cláudio debochava, a turma gargalhava. A turma completa não, claro. Júlio entrara na escola no início daquele ano e sempre fora uma figura quieta, apática, sem amigos. Ele não ria. Nem mesmo sorria.
Sua pele pálida e seus cabelos negros oleosos denunciavam que ele não tinha tempo para se divertir e não estava procurando namorada ou amigos. Tudo na aparência dele indicava que era o típico nerd. Exceto suas notas. Assistia todas as aulas e, ainda assim, tirava apenas a nota essencial para não reprovar.
Cláudio continuava escarnecendo da sua matéria. Adorava ser engraçadinho, os alunos o amavam. E ele amava a sensação de ser amado. O prazer de influenciar aquelas tão jovens mentes.
- Meninos, não caiam em todo esse besteirol, viu? Pratiquem a bulimia pedagógica. Engulam toda a matéria, vomitem-na na prova e aí simplesmente esqueçam! Infelizmente eu preciso saber esse lixo para ensinar a vocês... Sempre tem um ou outro que concorda, que é romântico, que acha bonitinho. Mas ouçam a voz da experiência: Mulher NENHUMA vale algo. Não se ofendam, meninas, mas, mais cedo ou mais tarde, vocês verão tudo isso também.
- MENTIRA!
A turma inteira se sobressaltou, olhavam de olhos arregalados para Júlio. Pouquíssimas vezes haviam ouvido sua voz. Ele nunca interrompera ou gritara com um professor. O próprio Cláudio estava atônito.
- É mentira. Você é um mentiroso!! Minha namorada é a flor mais delicada que existe! Tem uma beleza maravilhosa, cuida das pessoas, é uma excelente amiga, dança como um anjo, me ama... Por ela eu faria tudo.
Apesar de assustado, surpreso, Cláudio não ficou sem resposta.
- Aah, sim, claro. Muito bonito meu jovem. E quanto tempo de namoro vocês tem?
Júlio agora não estava mais tão inflamado quanto antes. A vermelhidão que se espalhava pelas bochechas poderia ser vergonha? Arrependimento? Falava mais baixo, mais introspectivo.
- Dois meses, professor.
Cláudio riu com gosto. Toda a turma o acompanhou na risada. Júlio, envergonhado, parecia murchar em sua cadeira, ficava cada vez menor e mais vermelho.
- Ora, dois meses não são nada, criança! Espere só até fazerem dois, três anos. Aí sim vai ver no que seu anjo se transforma!
Enquanto ria, virou para o quadro e começou a escrever algo. Mas Júlio disse:
- Não posso. O Senhor viu a borboleta que pousou na janela agora a pouco? Ninguém lhe deu atenção, e ela voou para longe, foi visitar flores, alegrar outras pessoas. Foi assim com minha Paula. Nos dois meses em que estive com ela, não lhe prestei a devida atenção. Não apreciei sua presença como deveria. Ela se foi em um acidente de carro. Talvez esteja visitando os Santos, alegrando os Anjos.
Júlio guardou todo seu material e, secando as lágrimas intermitentes que caíam, saiu da sala.
Naquele dia, após sua última aula, a noite, Cláudio fez algo quenão fazia desde os tempos de namoro. Parou numa floricultura e comprou gérberas, as flores preferidas de Clarissa.
Não havia mais tempo a ser perdido com deboches e reticências. O amor batera novamente à sua porta.

Mariana T. Spezani